Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

maedocoracaosoueu

Sab | 21.07.18

ANTES DE SER MÃE FUI MADRASTA!!!!!!!!!!!!

Madrasta é aquilo que uma pessoa nunca planeou ser.

 

Planeamos, quando crianças, ser professora, ser mãe, ser secretária, ser tia, ser cabeleireira ou médica. Mas madrasta não. Madrasta nunca esteve nos nossos planos, nem sabiamos o que isso era. Pois todos nós na altura tinhamos os pais juntos, havia um caso pontual de quem poderia ter os pais separados, mas por acaso eu não conhecia nenhum.

Mas a vida é assim mesmo, cheia de curvas que nos levam a lugares inesperados. Lugares lindos, mas ainda assim desconhecidos e cheio de sombras, cavernas e dúvidas. E o lugra de madrasta é um dos lugares desconhecidos mais incertos no qual nós já estivemos.

 

Ser madrasta- e também padrasto- é contar com presunção inicial desfavorável. A mãe, o pai, os avós, os tios, todos são presumidos como bons, como fonte de amor. Só se pensará o contrário se eles fizerem alguma coisa errada.. Já a madrasta e o padrasto fazem o caminho oposto. São presumidos como ameaça, como fonte de insegurança,um poço de dúvidas. E terão que remar contra a corrente para provar que são bons e que merecem alguma credibilidade.

 

E eu, que sempre tive certeza de ser a melhor pessoa possível, vejo-me nesta estranha posição de haver dúvidas a meu respeito, para as quais eu nunca contribui. De repente já não sou vista como aquilo que sempre tive a certeza de ser.

 

Ser madrasta é dar banho.

É tirar fazer a comida que mais gostam.

É ter um pacote de bolacha aberto na carteira.

É ser acordada às 8 da manhã no sábado.

Dar banho

É limpar o rabinho.

Mudar a fralda.

Fazer o pequeno almoço.

Arrefecer a sopa.

É pegar ao colo.

É fazer praticamente tudo (ou tudo) o que os pais fazem, com a consciência de que eu nunca vai usufruir da incondicionalidade da qual eles usufruem.

 

Algumas de nós já contam com certas regalias. Ser convidado para as festas da escola. Nunca.

Receber um abraço no dia das mães ou do dia dos pais.Nunca.

Aparecer nos desenhos da família que eles fazem na escola.Nunca.

Ir à festa e aniversário. Nunca

Outros fazem tudo o que os pais fazem, mas numa posição um pouco marginal, como se fossem bons o bastante para algumas coisas, mas não para outras. Definitivamente não é fácil.

 

Ser madrasta é apaixonar-se e entregar-se para uma criança que talvez nunca seja nossa.

Aliás não é nossa, tirem daí essa ideia.

É ter que ser chata como os pais e nunca poder ter a paz de alma de uma tia, ou de uma avó. É ter que medir as palavras para dar um ralhete que os pais podem dar sem pensar duas vezes. É ter um certo medo do futuro, de não saber se nosso amor será  correspondido. E mesmo assim amar.

 

Na verdade isto nunca esteve nos planos de ninguém.

Nem da mãe, nem do pai, nem da criança, nem da madrasta, nem do padrasto.

Ninguém contava com isso no início. Mas estes rumos estranhos da vida colocaram-nos aqui por alguma razão. E todos temos que aprender a lidar com isso, especialmente pelo bem das crianças.

 

É preciso ter força, ter maturidade e ,frequentemente, colocar os nossos interesses em segundo lugar.

Mães e madrastas não podem ser concorrentes, pais e padrastos não podem ser inimigos.

Somos adultos demais para isso. Todos temos nossas inseguranças, mas elas não podem ser maiores que o nosso interesse de dar uma vida feliz e equilibrada aos pequenos (às vezes já não tão pequenos).

E eu tinha 25 anos.

 

Ser madrasta é ser muito. É tentar ser o melhor possível. Tentar não invadir o espaço alheio e ao mesmo tempo tentar demarcar o nosso.

É cuidar com algum medo, caminhar com algumas dúvidas. É lutar diariamente com os estereótipos.

É sofrer com os modelos Disney de madrastas. As más.

É uma corda bamba muitas vezes ingrata.

Ser madrasta nunca esteve nos meus  planos, mas o inesperado por vezes traz grandes presentes. E não há presente maior do que olhar para eles e perceber que acima de tudo e contra tudo e conta todos construimos uma relação de amor.

Fui madrasta durante 10 anos.

Fui amada, não como mãe, mas fui amada.

Disso tenho a ceteza.

Pois era chamada de mammy two, mãe número dois.

E depois de dez anos o pai resolve dar-lhe outra madrasta.

Mas valeu a pena.

Valeu a pena pelas recordções fantásticas que ficaram.

Só doeu a separação.

A minha separação.

Fui eu quem se quis separar, embora ela me procurasse.

E eu fugi.

E alguém lhe fez ver que eu fugi.

Não queria que ela se sentisse dividida entre três pessoas, sim depois da separação já eram três pessoas.

Uma é muito, duas é demais, três é uma multidão