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mãedocoraçãosoueu

mãedocoraçãosoueu

A MINHA NOBREZA TEM LIMITES!!!!!!!!!

 
Há em mim uma passividade, uma lentidão, e um olhar ainda mais humano para com as pessoas e as situações.
Algo que chamo de ‘nobreza de alma’.
Algo que já definiram como ingenuidade mas não é assim tão simples.
Ainda existe e sempre tem existido em mim uma velha crença na vida, no bom lado das pessoas, nas boas intenções das falas e atitudes…

Não, isso não é muito bom.

Nada bom

Quantas vezes nesta vida eu fui educada, serena e distraída em situações que precisavam que meu sangue fervesse no momento e de uma boa imposição de limites, de uma fala mais firme e forte e de atitudes de autodefesa imediatas.

E quantas vezes demorou para a minha ficha cair…. quer dizer, às vezes caía cinco minutos depois e eu via  algo de absurdo a acontecer, mas por algum motivo, talvez por um excesso de empatia, por mais que eu estivesse a ser passada para trás, num primeiro momento eu acolhia o que de humano tinha a outra pessoa, eu tentava colocar-me no lugar dela e esquecia-me de me lembrar das minhas dores e feridas, do lado que me tocava.

O meu lado.

E lá fui aprendendo a cuidar-me sozinha em casa, com meus autodiálogos, com meus livros, amigos,pais, flha e escrita.

Mas tanta coisa eu queria ter dito e não disse.

Hoje lembro-me de algumas situações cruciais e no meu silêncio observador, na minha caridade para o absurdo do que se passava.

Quantas vezes a outra pessoa pensou que eu era nobre o bastante, altiva o bastante, segura e madura o bastante pois podia sair calma, evoluída e tranquila de um facto que no fundo me afetou muito.

Talvez porque as coisas em mim têm que cozinhar lentamente, e absorver camadas mais profundas.
Talvez porque eu tenha sido educada desde pequena a agradar, a deixar ser.
Ou talvez eu tenha desenvolvido um trauma em relação a discussões e conflitos e por isso eu seja uma grande pregadora da serenidade.
Porque de facto eu não gosto que o meu sangue ferva, que o meu dia se encha de adrenalina e que a raiva domine o meu corpo.

Mas é aquela velha história, paz sem voz, paz sem vez, não é paz, é medo.

Serenar na frente de absurdos, dos absurdos inflingidos, é uma atitude de desamor de nós mesmos.

E ser empático com pessoas que estão a ser simplesmente idiotas connosco, é uma submissão e um fortalecimento da estupidez do outro.

Eu não quero mais esta ‘nobreza’.
Não quero que se aproveitem dela.
Não quero esta serenidade que depois me tira o sono e me põe a digerir partes da história que não eram minhas, vestindo a roupa de outras almas.
Eu não quero entendender profundamente o humano e o outro lado, sendo que o meu, quem realmente se importa com ele?

Mais do que nunca é preciso estar atento e forte.

É preciso clareza e percepção, é preciso acção e fala.

É preciso o humano junto com a revolta e a serenidade junto com a não aceitação.

Que eu não seja cegamente explosiva, inchada de emoções à flor da pele.

Mas que eu também não seja submissa e passiva.

Que a alegria e a força feminina por vezes inflamem esta minha velha e ultrapassada nobreza.

E a minha mãe diz:

-Tens que mudar senão dificilmente conseguirás "segurar" um emprego.

E o meu pai diz:

-És como eu , não tens papas na lingua

E eu digo:

-Não gosto de engolir sapos.

E a minha mãe revira os olhos.

E o meu pai ri.

E eu penso que tenho mesmo que mudar, começar a trabalhar este feitio ou defeito.

 

SER MÃE SOLTEIRA É TÃO DIFÍCIL!!!!!!!!

Eu nunca me imaginei na situação que estou hoje.

Na minha cabeça adolescente (que durou até aos trinta e cinco anos..haha), eu teria primeiro, um trabalho certo, depois conheceria o amor da minha vida e depois teria filhos, tudo nesta ordem.

Não acreditava que uma mudança na posição dos acontecimentos me poderia fazer feliz, porque não era meu ideal de vida.

Mas a vida dá cada volta.

O emprego certo deixou de o ser, quem pensa que tem um emprego certo tire daí o sentido.

Conheci o amor, o amor verdadeiro duas vezes e tal como o emprego não é certo.

Ter filhos, estéril, fiquei estéril.

Mas acontece que hoje sou uma mãe solteira, estou longe de ter um emprego, e casamento é algo que nem me passa pela minha cabeça.

Apesar de parecer estranho,  eu sou bem feliz.

TODOS OS DIAS.

Sinto-me em paz com minha vida e com quem eu sou.

Sinto-me amada e amo as pessoas.

Valorizo sentimentos, não coisas.

Consigo todos os dias me sentir-me como na infância, pois tenho uma filha que respira esta casa e me ensina todos os dias.

Este é o meu cenário, mas não estou dizer que as coisas são fáceis.

Na verdade, as coisas são bem difíceis e vou explicar porquê. 

Mães solteiras enfrentam o preconceito, porque ousaram ter filhos, sem um casamento que justificasse a existência da criança.

Neste caso, toda a gente coloca as mulheres que estão nesta posição como se fossem todas iguais, e aí, lá vem o rótulo!

Nem vale a pena repetir os impropérios que a sociedade machista ainda impõe ás mães que criam filhos sozinhas.

Mas vale aceitar as inúmeras traições de um casamento de faz de conta, ou então engolir o choro por ser maltratada todos os dias por um homem que não nos sabe dar valor, pelo menos estamos casadas, certo?

Não é fácil ser mãe solteira, porque as pessoas te reduzem um pouco todos os dias, julgam quem tu és, mesmo sem ter trocado uma mísera frase contigo.

Além disso,  tratam-te como uma coitadinha abandonada ou como uma espertalhona qualquer.

Há quem não entenda  que aquela criança pode ter sido fruto de um amor de anos, de um desejo intenso, tão intenso que fazia ferida, qu lambia a ferida, que a mãe se doa completamente todos os dias, se parte em mil, deixa até de existir como indivíduo para que o filho cresça com dignidade e seja uma boa pessoa.

É difícil ser mãe solteira, porque a mulher também precisa de trabalhar, pagar as contas, tratar das tarefas domésticas, escovar os dentes, dormir, sair, dançar, namorar, beijar, abraçar, ser abraçada.

É difícil porque falta espaço na agenda do tempo para tantas coisas juntas que precisam ser feitas para que a criança  cresça saudável, cuidada, feliz, para que os dentes não acumulem tártaro e cáries por falta de cuidado.

É difícil ser mãe solteira, porque a mulher não consegue parar um minuto para curtir um momento só dela, porque as necessidades da criança sempre vêm em primeiro lugar, obviamente.

Ter tempo também para assistir a uma série ou ler o capítulo de um livro,  é necessário planear e virar a agenda de de pernas para o ar, caso contrário, esquecemos mais um dia que não deu para fazer algo por nós mesmas.

É difícil ser mãe solteira, porque tem sempre aquela presença ausência da figura paterna na vida da criança.

A mulher precisa saber que é o mar em que o filho vai desaguar as lágrimas por não ter um pai.

É difícil ser mãe solteira, porque há um dia em que parece que não vamos não vai dar conta do recado, que vamos desconjuntar, desequilibrar, desfalecer diante de tanta pressão para que ela sejamos perfeitas em tudo que fazemos.

É difícil também não ter com quem compartilhar as maravilhas que vemos todos dia pelos olhos de uma criança, ou ter alguém para deitar a cabeça no ombro e dizer “estou cansada, posso dormir um pouquinho tomas conta dela?”.

É difícil passar a vida toda nesta tarefa de mãe 24h, sem ouvir um elogio, uma palavra de incentivo a respeito do bom trabalho que fazes.

Tantas as reclamações!

Que vida triste, certo?

Errado.

A nossa vida só é triste se a gente assim a quiser ver.

Quem disse que felicidade tem um livro de instruções?

Pois se tiver estou a escrever um alternativo.

Chama-se “Minha vida é muito boa e eu gosto muito dela”.

Eu falo todas estas coisas porque uma vez ou outra, ouço por aí comentários sobre a minha classe, a classe das mães solteiras e fico sempre indignada com os absurdos que ouço.

Por isso, vocês que me lêem, entendam: este não é um texto cheio de reclamações ou que tem o objetivo implícito de fazer todas as mães solteira de vítimas.

O que almejo é o contrário,mostrar que a vida pode ser bastante difícil se a encarararmos dessa forma.

Pensam que fico matutando sobre estas “dificuldades” no meu dia a dia?

Claro que não.

Prefiro aproveitar o tempo que a vida me dá para ser bem feliz com quem sou e com as pessoas que amo.

E desejo a todas aquelas que estão na mesma situação essa mesma clareza de que não existe fórmula mágica no nosso modo de viver, o que a gente tem que aprender é a olhar com mais amor.

Só isso.

Eu estou a conseguir.

Espero que vocês consigam também.

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