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maedocoracaosoueu

Sab | 08.09.18

A TRISTE HISTÓRIA DE UM PAI!!!!MAS PODIA SER BEM SER DE UMA MÃE!!!!!!!!!!CHOCANTE ESTE RELATO!!!

Sou homem.

Sou machista.

Fui criado assim.

Cresci, casei e tive uma filha.

Sempre subjuguei a minha mulher, o que achava ser completamente natural.

Afinal, o machismo é tão estrutural que se naturaliza.

Usava adjetivos como incompetente, idiota, estúpida, para criticar muitas das suas falas e posturas, e assim a diminuir.

Nunca a agredi fisicamente, mas praticava violência psicológica.

A minha filha foi criada neste ambiente.

Eu ria das piadas que humilham ou desqualificam as mulheres, e as reproduzia.

Quando alguma se ofendia e reclamava, eu perguntava se não tinha senso de humor, era só uma piada, uma brincadeira.

Além disso, sempre fui muito moralista, especialmente quando via mulheres com roupas muito curtas.

Tantas vezes disse que estavam a pedi-las.

Lembro-me de uma vez que me contarem sobre um caso de estupro de uma miúda “moderninha” aqui no sítio onde moro, e questionei se foi estupro mesmo.

Afinal, ela abusava, estava a pedi-las, não?

A minha filha ouvia isto.

Defendia que homens e mulheres são muito diferentes e os direitos não poderiam ser iguais.

Reproduzia as falácias de que o homem é mais racional,a mulher é mais sentimental; que um monte de mulheres no mesmo ambiente de trabalho não dá certo; que as mulheres falam demais; que as mulheres gostam de coscuvilhice; que os homens são mais competentes para gerir negócios; que há mulheres que gostam de apanhar; que quando a criança é mal educada é culpa da mãe.

A minha filha aprendeu tudo isto.

Uma vez um vizinho agrediu fisicamente a mulher.

A minha esposa e minha filha queriam chamar a polícia. lmpedi-as.

Disse que “entre marido e mulher não se mete a colher”. Lá sabemos o que ela fez para ele perder a cabeça?

A minha filha interiorizou esta ideia.

Eu desumanizava a figura feminina.

As mulheres mais independentes e desprendidas das regras morais as quais eu defendia, eu chamava-lhes nome muito feios.

Dizia que feminismo é coisa de mulher mal comida, feia, desajustada, recalcada.

Ficava ofendido quando alguém me chamava de machista, dizia, “nem machismo, nem feminismo, nada de ismos”.

A minha filha chegou até a reproduzir algumas dessas minha palavras.

Recordo quando ela me apresentou o namorado.

Estavam no início.

Uma vez ouvi-a a conversar com uma amiga e dizia que ele ás vezes era um bocado  grosseiro, mas os homens são mesmo assim, não é?

Eu era a sua referência.

Mais uma  vez falou com uma prima sobre o ter encontrado com outra rapariga mas ele desculpou-se e disse que a amava.

Lembrou-se que há alguns anos, a mãe também tinha descoberto que eu pulei a cerca, e que isso era mesmo coisa de homens.

Eu gostava dele.

Era um rapaz muito simpático e trabalhador.

Ria muito das piadas que eu contava sobre mulheres e até trouxe algumas novas que ampliaram meu repertório.

Casaram-se.

Com a minha bênção.

Uma vez ela desabafou a mãe que ele era muito ciumento e possesssivo.

Envolvi-me na conversa e disse que ele era o homem da casa e ela tinha de respeitá-lo, e que ciúme era sinal de amor.

Ela concordou.

Percebi que algumas vezes ele falava com ela de uma forma agressiva.

Conversei com ele.

Pediu-me desculpas, disse que se ia controlar, “mas que as mulheres falavam demais, sabe como é, fico nervoso" 

Acabei por concordar com ele.

Há pouco tempo ela chegou em casa com um hematoma no olho, o rosto inchado e marcas nos braços.

Perguntei o que era aquilo e ela respondeu que tinha caído, mas estava bem, que eu não precisava de me preocupar.

Perguntei se estava tudo bem entre ela e o marido. Ela disse que sim, que ele a amava.

Ontem recebi uma chamada da polícia.

Soube que minha filha estava morta.

O seu companheiro atirou-a da varanda do apartamento no décimo andar, ou a esfaqueou, ou a matou a tiro, ou a estrangulou, ou a agrediu até a morte, durante uma discussão.

Os vizinhos ouviram os gritos de socorro dela, mas ninguém se envolveu ou chamou a polícia, afinal, entre de marido e mulher não se mete a colher.

Eu cai, ou fui esfaqueado, ou agredido, ou estrangulado, ou alvejado, juntamente com a minha filha.

Agora jazo neste chão frio. A queda, ou o tiro, ou o estrangulamento, ou a agressão, ou a facada, que destroçou minha alma, aguçou meus sentidos.

Consigo ver, consigo ouvir.

Vejo agora com uma clareza e lucidez que me lancinam: o machismo, que sempre reproduzi, oprime, fere, mata.

Ouço o grito dos feminismos. É um grito de dor. É um grito ancestral. É um grito por igualdade de direitos e oportunidades. É um grito por respeito. É um grito pela vida. É o grito da minha filha, e da vossa.

Agora é tarde demais para mim.

Agora é tarde para ela.

Matei minha filha.

A cada acto machista eu matei minha filha.

Matei também outras filhas, irmãs, mães…

Reproduzir o machismo é sujar as mãos de sangue.

Vamos agir antes que seja tarde  demais.

Vamos meter a colher.

Vamos mudar as mentalidades.

Vamos ser mais cuidadosos com as palavras.

Vamos olhar parar e intervir.

Vamos fazer qualquer coisa pois caminhamos para um mundo que não é o mundo que queriamos para nós nem tampouco para os nossos filhos.

Vamos perder o medo.

 

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